Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Fragmento nº29 (haverá coisa mais genuína do que um vómito?)

Quando ela me apareceu à frente com o rapaz dos olhos chorosos tive que fazer um exercício zen antes que a surpresa e o desagrado me empurrassem os músculos faciais para um qualquer trejeito delator. Anos e anos com a menina ao colo, os meus ombros a secarem-lhe as lágrimas e as confissões, quilómetros de cabelo percorrido pelo consolo das minhas mãos, chás de camomila nos dias maus, até hirudoid nas literais nódoas negras dos amores macho-alfa (campeões do streetracing, bonés de pala erecta), anos e anos a beber-lhe os choros e as mágoas e as flutuações do sistema endócrino, anos e anos a levá-la ao passeio semanal pela Cidade

as luzes de Lisboa nas calçadas gastas, as luzes pontuais ao apressado anoitecer de inverno, o apelo místico das luzes das lojas de Lisboa, as luzes de Lisboa no basalto carcomido das ruas cansadas, as irrecusáveis luzes a piscar nas fachadas velhas; à medida que se apagam lentamente, as luzes dos automóveis a bafejar chumbo no ar arrefecido, para longe; as luzes trémulas no ondear da vazante, as luzes acetinadas que o lodo devolve ao ar para que lhe aceitemos a exalação fétida, as giratórias luzes nos currais onde a solidão se junta e cresce; as excessivas luzes dos cais aspergindo o falso dia sobre o metal gélido

e agora isto, um tipo de semblante apagado, a quem uns ombros curvos enfatizam a estatura baixa, um tipo de olhos tristes, de cachorro abandonado, empoleirado talvez nas suas artes escolares ou mesmo em coisa nenhuma (a fragilidade de espuma que o instinto maternal procura), uma nulidade no carisma, no estar, sempre recuado, a apanhar no ar o meu fantástico discurso ilustrado de caretas, como um espectador de ténis na perseguição visual da bola, esta encarnação do nada naquele lugar, no lado de lá do binómio eu-ela, a admirá-la

no princípio creio que foi aquele jeito de puxar o cabelo atrás, descortinando a linha deliciosa do queixo, a prolongar-se até à orelha, como quem abre uma janela a convidar à intimidade.

E o deslumbramento com o belo, transbordando no olhar, que, nessas ocasiões, se dilata num esforço para tudo absorver.

(uma nulidade com muito bom gosto, admito-o) a fazer parte, atravessando-lhe os dias, assistindo-lhe ao sono e ao despertar, quantos quilómetros de cabelo terá aquela pobre mão que percorrer para chegar à minha marca, quantos anos (mais de vinte?) a beber-lhe as lágrimas e as flutuações endócrinas, de maneira que se não fosse o exercício zen, aprendido com a Leyla nos meus intervalos entre o Chapitô e as sessões de figuração do Paulo Branco, todo o mau perder se me teria vertido em esgares, desta vez não fingidos, desta vez não se esgotando em si-mesmos, mas um exuberante vómito do espírito (haverá coisa mais genuína do que um vómito?) que me desmontaria a pose de independência e impassibilidade. E de cada vez que me lembro de quando ela apareceu com o rapaz dos olhos chorosos, ensaio com mais vigor os truques de saltimbanco, para a próxima que estivermos juntos, uma nova pirueta, um triplo mortal de esguelha, para acentuar ainda mais a curvatura de ombros do rapaz triste (sofreu muito, diz-me)

ardem-me os olhos de uma tristeza não chorada, negras lágrimas viscosas represadas na garganta aflita, pesam como âncoras, oprimem como íncubos obstinados

cujos olhos profundos se fazem credores do mundo (uma estupidez), como se lhe devêssemos compreensão – diria melhor, paciência – para o ar funesto do semblante ou as observações existenciais-nihilistas, um fósforo apagado que sofreu muito e que duvido que alguma vez tivesse ardido luminosamente, no máximo uma brasa desanimada, e contudo num lugar que não é meu, que nunca foi (a não ser…), um lugar que nunca foi meu - diga-se em abono da verdade, por minha escolha, pelo amor da minha cerviz, rija como as pedras - ceder aos caprichos, eu, desistir do meu exosqueleto de auto-confiança e ideias feitas sobre mim-próprio e sobre as coisas, mostrar o meu avesso (genuíno como um vómito), como poderia eu fazê-lo e manter a imagem de herói bem-humorado e protector, as minhas mãos continuarem a sua quilometragem, paternalmente (paternalmente?), pelos cabelos de ouro? e ao fim e ao cabo, veio tudo dar no mesmo, nem uma coisa nem outra, contento-me com a exibição das novas acrobacias sempre que a vejo, o meu exosqueleto intacto (sou uma barata das emoções), livre de concessões, de adaptações, das lamechices das confissões mais internas, do despudorado franquear do coração (que palavra idiota para as palpitações da mente e da carne!...), a salvo de um impensável intercâmbio sentimental simétrico (a não ser, talvez, quando…), vou continuando sobre o meu ambulante pedestal de fleuma, pagando o preço no frio dos lençóis e do coração (arre! lá estou eu outra vez, será isto uma brecha no meu casaco de quitina?…), amarfanhando os impulsos em tiques manuais, traduzindo em larachas o que me rói as vísceras, desaparecendo de saudades, expressando-me por estes e outros oxímoros, tudo, menos uns olhos chorosos credores do mundo, tudo menos a moleza da confissão, jamais a flacidez da humildade, nunca pagar o preço do êxtase da sintonia plena (a não ser, talvez, quando o curso dos acontecimentos…), mais vale nem sequer pensar nisso, concentrar-me neste novo exercício com cinco massas intercalado de espargatas que o rapaz dos olhos chorosos contemplará encolhido e mudo, talvez a sofrer muito, a rotação perpétua do malabar um hino à minha virilidade intacta (a não ser quando o curso dos acontecimentos se enganou e...) o celibato como fermento de sedução, (um anúncio de colónia barata - «o homem que sabe sempre o que quer») sim, o homem que sabe sempre o que quer (a não ser quando o curso dos acontecimentos de se enganou e por isso apagámos como se nunca tivera sido), porque eu sou o homem que sabe sempre o que quer e o que eu quero é que eles sejam muito felizes, tão completamente felizes, antes que o universo inteiro comigo dentro deslize como esgoto para o abismo daqueles olhos chorosos.

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